“O sagrado não negocia: reverbera. O universo devolve, em abundância, o campo onde repousa nossa atenção. Entre barganha e fluxo, escolha o fluxo.”
Sobre a nossa relação com o sagrado — e a relação que insistimos em fazer do sagrado com algo que deva ser submetido às nossas expectativas — bem como sobre os relacionamentos românticos, andei pensando que deveríamos parar de tentar barganhar nossa existência a partir de uma ótica escassa e condicional, para ocuparmos um lugar mais próspero, honrando nosso protagonismo diante das nossas escolhas e posturas perante a vida.
Explico:
Sempre que recorremos à ideia de sagrado em nossas vidas, ela está vinculada a algum tipo de troca: para alcançarmos prosperidade, amor, reconhecimento social, saúde — não importa o motivo — quase sempre partimos do princípio da falta, da escassez, daquilo que não temos e desejamos ter. Daí entra a barganha: eu ofereço meu sacrifício em troca de ter preenchido o vazio que me habita pela escassez daquilo que desejo e não tenho.
Só que, se pensarmos sobre a natureza do sagrado sem atribuirmos valores dogmáticos, veremos que o sagrado em si é, por definição, abundância e fluxo contínuo de tudo o que, na arquitetura do nosso imaginário, nos habita.
Incluindo a escassez — e eu não estou brincando. O universo em que habitamos não comunga da nossa moral; ele nos devolve aquilo sobre o que edificamos nossos pensamentos.
Sagrado, sob esta perspectiva, é a resposta concreta que o universo nos dá sobre tudo o que nos demoramos em pensar.
Quando nos voltamos ao sagrado, quase sempre o fazemos como quem chega a um balcão de trocas: oferecemos sacrifício, promessa, esforço, para que, em retorno, recebamos prosperidade, amor, reconhecimento, saúde. Essa lógica — tão antiga quanto nossa própria sede de sentido — parte sempre da falta.
A vida, então, parece uma negociação permanente entre o vazio que nos habita e o preenchimento que esperamos.
Mas o sagrado, se olhado sem dogma, não é escassez. O sagrado é fluxo, abundância, movimento contínuo. É o acontecer do ser — não a moeda de troca para que o ser se manifeste. E aqui repousa o paradoxo: inclusive a escassez, quando cultivada como pensamento, se torna abundante.
O universo não julga. Não comunga da nossa moral, não negocia com os nossos critérios de justiça. Ele apenas devolve, como espelho ampliado, aquilo sobre o que demoramos nossa atenção. Se nos demoramos no medo, o medo nos retorna. Se insistimos na falta, colhemos falta em profusão. Se escolhemos o amor, o amor se multiplica.
Sob essa perspectiva, o sagrado é a resposta concreta que o universo nos dá sobre tudo em que nos demoramos a pensar. Não é abstração etérea, mas reverberação prática: o campo em que nos demoramos é o campo que cresce.
Isso exige uma mudança radical: parar de barganhar com a vida como quem pede fiado e assumir o protagonismo diante das próprias escolhas. A vida não é um contrato condicional; é fluxo. Cabe a nós decidir em que fluxo nos demoramos, pois é dele que o universo fará abundância.
Deixe que o universo devolva, em abundância, o campo em que sua atenção for semeadura.
Precisamos refletir melhor sobre a dinâmica das relações que cultivamos.
Minha proposta?
Venha mergulhar em si para entender em qual fluxo você tem se demorado.
Imagem: Rômulo Avi
Karina Zapater
Psicóloga
CRP 06/184974









